"Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim... Gabriela...Sempre Gabriela”
Quantas vezes repetimos: Eu sou assim e não vou mudar, quem quiser aceitar que aceite.
O fato é que não viemos para esse mundo para agradar os outros. E se tentarmos fazer isso iremos pirar porque nunca conseguiremos agradar a todos. A síndrome de Gabriela pode prejudicar a nós mesmos porque tudo muda o tempo todo e se não nos adaptarmos a mudança fatalmente iremos sofrer. Insistir sempre nos mesmos erros para afirmar que: “Eu sou assim” só trará sofrimento. Não estou dizendo que temos que ser uma metamorfose ambulante ou para corrompermos a nossa essência mas que podemos mudar e melhorar de acordo com as nossas vivências.Segundo o filósofo Heráclito: “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.” Para ele Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado. Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo e você já não é o mesmo quando entra no rio pela segunda vez. É na mudança que as coisas acham repouso.
Quantas coisas mudaram desde os anos 80 até aqui, o mundo tecnológico, as brincadeiras das crianças já não são as mesmas, o mercado de trabalho que exige formação superior e há pouco tempo o ensino médio apenas bastava, as concepções de famílias, os tipos de relacionamentos, enfim são infinitas mudanças e como podemos acreditar que somos sempre os mesmos, que não mudamos. Temos que mudar para nos adaptarmos as mudanças.
Certo dia meu irmão falou que as pessoas pioram com o tempo, eu acredito que o processo natural é o aperfeiçoamento da alma. Concordo em partes com ele porque tentamos ter o controle de tudo e se algo não sai como planejado e não adaptamo-nos às mudanças, e não mudamos nossa forma de agir e pensar , tornamo-nos amargos e frustrados. E ao contrário, se aceitamos as mudanças e aprendemos com elas, amadurecemos e evoluímos. Mas tudo gera uma mudança para pior ou para melhor.
Se fizermos uma reflexão: Somos iguais ao que fomos há cinco anos? No meu caso, perdi alguns medos, e obtive outros. Aprendi a controlar meus impulsos, mudei alguns valores, passei a priorizar coisas que antes não tinham importância. Já não sou mais a mesma e essas mudanças aconteceram não porque quis mas porque é um processo natural para acompanharmos todas as mudanças do mundo.
"Tudo muda exceto a própria mudança."Heráclito
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Experiência e o saber da experiência
Não costumo postar textos que não sejam de minha autoria , mas o texto do autor Jorge Larrosa aborda o contexto da nossa era da informação, por isso fiz uma síntese e espero ter sido fiel a ideia do mesmo.
O autor faz uma abordagem diferente do senso comum ou do que aprendemos como experiência. O senso comum tem como base para experiência aquilo que foi vivido, indiferente do que foi pensado e extraído dessa vivência, ou experimentos científicos, dados empíricos, puramente objetivos. Ele aborda que o excesso de informação e agilidade que tudo acontece hoje,nos impede de vivermos experiências reais, que seria a auto reflexão, a introspecção, aquilo que constrói a nossa subjetividade.Com o excesso de objetividade do mundo moderno, onde o conhecimento técnico é algo utilitarista para e puramente troca monetária, seria paradoxal a construção de uma subjetividade. O objetivo é termos conhecimento, no sentido de informação e opinarmos sobre isso, sem que isso nos provoque uma catarse. É algo imediato, momentâneo e logo passamos para próxima informação, para a próxima opinião sem que isso nos tenha causado nada de experiência. São sentimentos efêmeros e volúveis.
Larrosa enfatiza o poder das palavras nesse processo transformador: “Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e também que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nossos pensamentos porque não pensamos com pensamentos, não pensamos de acordo com uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. Pensar é dar sentido ao que somos e ao que nos acontece”. Ele afirma que as palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que percebemos e o que sentimos são mais que palavras. Por isso é necessário o controle, saber o significado e silenciar certas palavras.
Ele busca a etimologia da palavra experiência que significa em várias línguas “o que nos passa” e o que nos passa requer percepção, requer silêncio e não opinião. A falta de memória e silêncio são inimigos mortais da experiência. Ao sujeito da era da informação, do estimulo, tudo o excita, tudo o agita, tudo o choca mas nada lhe acontece. O objetivo é ser informante e informado e essa obsessão pelo saber, não traz sabedoria.
O excesso de trabalho também impede a experiência. Não raro, confundimos trabalhar com adquirir experiência. O sujeito moderno além de ser o sujeito informado que opina, e vive em constante movimento, é um ser que trabalha que condiciona o mundo a sua vontade. Esta sempre desejando produzir algo, regular algo. Não podemos parar e por não podermos parar não nos acontece nada, nada nos passa.
Para o autor a experiência requer que algo nos aconteça ou nos toque e isso requer parar: parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, escutar mais devagar; parar para sentir, se ater mais nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, aprender a escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.
O sujeito da experiência tem paixão, ele sente, sofre, padece e se transforma. Ele é passivo, receptivo, mas não quer dizer que não aja ,um agir calmo e coerente, com sabedoria.
A experiência é uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem “pré-ver”, nem “pré-dizer”.
O que posso concluir é que autor relata exatamente o que vejo nas páginas sociais, um tribunal popular onde todos julgam, acusam ou defendem baseados na informação sem qualquer comprometimento se aquilo é verdadeiro ou falso. E puxando a brasa para o meu assado, a filosofia tem exatamente este objetivo, amor à sabedoria, a reflexão, a introspecção, questionar “verdades” prontas. Através do poder das palavras e sua força transformadora ela tem como objetivo incentivar as pessoas a pensarem por si mesmas, por isso, possui mais perguntas do que respostas.
Deixando a opinião de lado, o texto serve para longa reflexão: Será que estamos tendo experiências?
Fonte :
Artigo: Notas sobre a experiência e o saber de
Experiência
Jorge Larrosa Bondía
Universidade de Barcelona, Espanha
Tradução de João Wanderley Geraldi
Universidade Estadual de Campinas, Departamento de Lingüística
O autor faz uma abordagem diferente do senso comum ou do que aprendemos como experiência. O senso comum tem como base para experiência aquilo que foi vivido, indiferente do que foi pensado e extraído dessa vivência, ou experimentos científicos, dados empíricos, puramente objetivos. Ele aborda que o excesso de informação e agilidade que tudo acontece hoje,nos impede de vivermos experiências reais, que seria a auto reflexão, a introspecção, aquilo que constrói a nossa subjetividade.Com o excesso de objetividade do mundo moderno, onde o conhecimento técnico é algo utilitarista para e puramente troca monetária, seria paradoxal a construção de uma subjetividade. O objetivo é termos conhecimento, no sentido de informação e opinarmos sobre isso, sem que isso nos provoque uma catarse. É algo imediato, momentâneo e logo passamos para próxima informação, para a próxima opinião sem que isso nos tenha causado nada de experiência. São sentimentos efêmeros e volúveis.
Larrosa enfatiza o poder das palavras nesse processo transformador: “Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e também que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nossos pensamentos porque não pensamos com pensamentos, não pensamos de acordo com uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. Pensar é dar sentido ao que somos e ao que nos acontece”. Ele afirma que as palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que percebemos e o que sentimos são mais que palavras. Por isso é necessário o controle, saber o significado e silenciar certas palavras.
Ele busca a etimologia da palavra experiência que significa em várias línguas “o que nos passa” e o que nos passa requer percepção, requer silêncio e não opinião. A falta de memória e silêncio são inimigos mortais da experiência. Ao sujeito da era da informação, do estimulo, tudo o excita, tudo o agita, tudo o choca mas nada lhe acontece. O objetivo é ser informante e informado e essa obsessão pelo saber, não traz sabedoria.
O excesso de trabalho também impede a experiência. Não raro, confundimos trabalhar com adquirir experiência. O sujeito moderno além de ser o sujeito informado que opina, e vive em constante movimento, é um ser que trabalha que condiciona o mundo a sua vontade. Esta sempre desejando produzir algo, regular algo. Não podemos parar e por não podermos parar não nos acontece nada, nada nos passa.
Para o autor a experiência requer que algo nos aconteça ou nos toque e isso requer parar: parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, escutar mais devagar; parar para sentir, se ater mais nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, aprender a escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.
O sujeito da experiência tem paixão, ele sente, sofre, padece e se transforma. Ele é passivo, receptivo, mas não quer dizer que não aja ,um agir calmo e coerente, com sabedoria.
A experiência é uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem “pré-ver”, nem “pré-dizer”.
O que posso concluir é que autor relata exatamente o que vejo nas páginas sociais, um tribunal popular onde todos julgam, acusam ou defendem baseados na informação sem qualquer comprometimento se aquilo é verdadeiro ou falso. E puxando a brasa para o meu assado, a filosofia tem exatamente este objetivo, amor à sabedoria, a reflexão, a introspecção, questionar “verdades” prontas. Através do poder das palavras e sua força transformadora ela tem como objetivo incentivar as pessoas a pensarem por si mesmas, por isso, possui mais perguntas do que respostas.
Deixando a opinião de lado, o texto serve para longa reflexão: Será que estamos tendo experiências?
Fonte :
Artigo: Notas sobre a experiência e o saber de
Experiência
Jorge Larrosa Bondía
Universidade de Barcelona, Espanha
Tradução de João Wanderley Geraldi
Universidade Estadual de Campinas, Departamento de Lingüística
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Para onde vão as pessoas quando morrem?
Ontem fiquei sabendo da morte de um colega da filosofia, muito querido por todos.
Desde 2012, encontrávamos em duas ou três aulas, ou seja, um contato de três vezes por semana. Sabe aquele cara centrado, disciplinado e inteligente.O cara era engenheiro e cursava filosofia por amor ao conhecimento, era um entusiasta nas aulas. Os professores o adoravam. Eu ficava embasbacada quando ele dizia que acordava as 05h30min da manhã para ler os livros indicados pelos professores, depois cumpria sua jornada de trabalho, no final da tarde corria dentro da Unisinos e tranquilamente ia para aula, participava dos debates, pois havia feito a leitura dos textos indicados e não havia nele qualquer sinal de cansaço e pasmem , nos finais de semana participava de maratonas de até 40km. Motivava a todos para participarem das corridas.Nas férias ele aproveitava para iniciar as leituras do semestre seguinte. Eu ficava cansada só de pensar em acordar antes das 07h00 da manhã, cinco minutos de sono é algo que não abro mão, ou seja, eu estava sempre correndo atrás da máquina para fazer todas as leituras e dar conta da faculdade e trabalho e de vez em quando fazer um treininho na academia, se sobrasse tempo, algo que administro muito mau.
Num desses semestres que estudamos juntos , eu estava a beira de um surto psicótico e ele na sua sabedoria percebeu e me perguntou o que estava ocorrendo, eu disse que não estava dando conta de tanta leitura, que meu trabalho estava me exigindo bastante e ele tranquilamente me aconselhou: -“Desacelera, leva a vida mais de boa, não precisa ler o livro inteiro, leia apenas o que vai ser debatido em aula e quando sobrar tempo você lê o restante com calma. Não se cobre tanto.” Fiquei pensando : Nossa! Como ele consegue fazer tanta coisa ao mesmo tempo e manter esta serenidade? Sabedoria que só vem com a maturidade. Ele deveria ter uns 50 anos de idade no máximo. Eu chegava em casa e comentava com o meu marido sobre ele e de como eu gostaria de ser assim, tão disciplinada. Era uma disciplina sem dor, sem cobrança, automática.
No semestre seguinte ao conselho resolvi testar seus ensinamentos e por incrível que pareça, aumentei o numero de disciplinas e meu aproveitamento foi muito maior, apenas desacelerando e me cobrando menos.
No primeiro dia de aula desse semestre , ele não estava, estranhei porque nunca faltava a aula. O professor comentou algo , que ele havia mandado uma mensagem dizendo que estava com um problema no joelho mas que já havia lido cem páginas da leitura indicada para o seminário de Hegel, mesmo hospitalizado.
Sexta-feira a noite havia uns recados no facebook para ele ter força, que logo iria correr mais maratonas. Pensei em ligar me solidarizando e decidi: Segunda-feira eu ligo.
Ontem , segunda-feira, na hora do almoço fiquei sabendo através de um colega sobre seu falecimento, estava almoçando, não consegui mais comer.O estômago embrulhou.
Como assim? Alguém com tanta disposição, um atleta, morrer. Um colega falou que foi câncer de pulmão. Ele não fumava, tinha uma alimentação saudável. Sei lá, vai entender.
Enfim, como já falei em textos anteriores a morte não costuma agendar. Não espere o outro dia para ligar para alguém. Ela é indiferente a todo o nosso cronograma. Não importa quantos livros ainda tenhamos para ler, quantas maratonas nós pretendamos correr, quantos objetivos tenhamos para alcançar. Do colega fica apenas bons exemplos, boas recordações de um sorriso tímido e de um olhar compreensivo, de uma palavra certa.
Para onde vão as pessoas quando morrem?
Espero que ele esteja num lugar bonito e que tenha alguns filósofos para trocar ideias.
Desde 2012, encontrávamos em duas ou três aulas, ou seja, um contato de três vezes por semana. Sabe aquele cara centrado, disciplinado e inteligente.O cara era engenheiro e cursava filosofia por amor ao conhecimento, era um entusiasta nas aulas. Os professores o adoravam. Eu ficava embasbacada quando ele dizia que acordava as 05h30min da manhã para ler os livros indicados pelos professores, depois cumpria sua jornada de trabalho, no final da tarde corria dentro da Unisinos e tranquilamente ia para aula, participava dos debates, pois havia feito a leitura dos textos indicados e não havia nele qualquer sinal de cansaço e pasmem , nos finais de semana participava de maratonas de até 40km. Motivava a todos para participarem das corridas.Nas férias ele aproveitava para iniciar as leituras do semestre seguinte. Eu ficava cansada só de pensar em acordar antes das 07h00 da manhã, cinco minutos de sono é algo que não abro mão, ou seja, eu estava sempre correndo atrás da máquina para fazer todas as leituras e dar conta da faculdade e trabalho e de vez em quando fazer um treininho na academia, se sobrasse tempo, algo que administro muito mau.
Num desses semestres que estudamos juntos , eu estava a beira de um surto psicótico e ele na sua sabedoria percebeu e me perguntou o que estava ocorrendo, eu disse que não estava dando conta de tanta leitura, que meu trabalho estava me exigindo bastante e ele tranquilamente me aconselhou: -“Desacelera, leva a vida mais de boa, não precisa ler o livro inteiro, leia apenas o que vai ser debatido em aula e quando sobrar tempo você lê o restante com calma. Não se cobre tanto.” Fiquei pensando : Nossa! Como ele consegue fazer tanta coisa ao mesmo tempo e manter esta serenidade? Sabedoria que só vem com a maturidade. Ele deveria ter uns 50 anos de idade no máximo. Eu chegava em casa e comentava com o meu marido sobre ele e de como eu gostaria de ser assim, tão disciplinada. Era uma disciplina sem dor, sem cobrança, automática.
No semestre seguinte ao conselho resolvi testar seus ensinamentos e por incrível que pareça, aumentei o numero de disciplinas e meu aproveitamento foi muito maior, apenas desacelerando e me cobrando menos.
No primeiro dia de aula desse semestre , ele não estava, estranhei porque nunca faltava a aula. O professor comentou algo , que ele havia mandado uma mensagem dizendo que estava com um problema no joelho mas que já havia lido cem páginas da leitura indicada para o seminário de Hegel, mesmo hospitalizado.
Sexta-feira a noite havia uns recados no facebook para ele ter força, que logo iria correr mais maratonas. Pensei em ligar me solidarizando e decidi: Segunda-feira eu ligo.
Ontem , segunda-feira, na hora do almoço fiquei sabendo através de um colega sobre seu falecimento, estava almoçando, não consegui mais comer.O estômago embrulhou.
Como assim? Alguém com tanta disposição, um atleta, morrer. Um colega falou que foi câncer de pulmão. Ele não fumava, tinha uma alimentação saudável. Sei lá, vai entender.
Enfim, como já falei em textos anteriores a morte não costuma agendar. Não espere o outro dia para ligar para alguém. Ela é indiferente a todo o nosso cronograma. Não importa quantos livros ainda tenhamos para ler, quantas maratonas nós pretendamos correr, quantos objetivos tenhamos para alcançar. Do colega fica apenas bons exemplos, boas recordações de um sorriso tímido e de um olhar compreensivo, de uma palavra certa.
Para onde vão as pessoas quando morrem?
Espero que ele esteja num lugar bonito e que tenha alguns filósofos para trocar ideias.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
A maldade dos Homens...
Pensando em como os Homens podem ser maus,lembrei-me de mais uma história ocorrida na minha infância lá na Chácara de Cristal.
Tem a maldade pela ganância e inveja , tem a maldade por ignorância do bem e tem a maldade por pura maldade mesmo, tem gente que parece gostar de fazer o mau.
Fomos embora do sítio e viemos para Novo Hamburgo porque a paz daquele paraíso acabou.
Vou relatar a história:
Começamos a perceber que alguém ficava escondido atrás de uma pedra, cerca de um quilômetro da casa, praticamente todos os dias, observando nossa rotina, quando tentávamos nos aproximar, o indivíduo saia correndo. Nossa ingenuidade não podia prever o que estava por acontecer.
Certo domingo, fomos passear num dos vizinhos, não lembro qual e quando voltamos alguém havia entrado na casa. Roubaram o velho rádio do meu pai, um par de chinelos e um jogo de lençol. Não era muita coisa, mas algo absurdo, pois nunca soubemos de nenhum roubo nas redondezas. A porta era fechada com uma tranca de madeira, não havia chaves. Não deixou rastros, mas supomos que fosse o indivíduo que vinha rondando a casa.
Não parou por ai, depois desse dia, todas as noites ouvíamos os latidos dos cachorros próximo as estufas, onde ficava o poleiro das galinhas. Todas as noites sumia uma galinha.
Certa manhã um de nossos cachorros amanheceu boiando no açude, quando fomos retirá-lo de lá, estava com as quatro patinhas amarradas com um cinto. Choramos muito, era apenas um filhote da raça Collie. Começamos a ficar apavorados porque percebemos que ele não queria apenas roubar, mas amedrontar. Sabia que ali vivia um Senhor cego, uma Senhora e três crianças. Meu irmão tinha apenas quatorze anos.
O bandido descobriu onde ficava o disjuntor da luz e começou a desligá-lo quase todas as noites, o fato é que ficava cerca de quinhentos metros da casa e meu pai com porrete em punho e minha mãe iam em meio a escuridão religá-lo, correndo risco de serem surpreendidos. Algumas noites ele desligava o disjuntor depois que já tínhamos ido dormir e no outro dia, tudo que havia na geladeira tinha sido perdido.
Quando os cachorros começavam a latir, meu pai dava alguns tiros a esmo, para amedrontá-lo. No entanto isso não intimidou, pelo contrário, as vindas eram mais frequentes. Outra noite, os cachorros latiram muito próximo à porta da cozinha, já não arriscávamos sair para a rua durante a noite, reforçamos as trancas da casa. No outro dia percebemos que havia um pozinho verde em frente a porta da cozinha e as “espertas crianças” e curiosas colocaram água em cima,o liquido escorreu pelo terreiro, só que alguns pintinhos sedentos beberam dessa água e no mesmo instante, morreram.
Estávamos apavorados, não sabíamos o que fazer, percebemos que estávamos lidando com alguém muito mau. E por que nós? Falamos com os vizinhos, ninguém estava sendo roubado. Meu pai passou a manter o revólver próximo a ele, caso houvesse alguma invasão na casa.
Havia um vidente nas redondezas e meu pai, nos momentos de aperto o consultava.O Senhor Valdemar, pegava suas folhas de arruda, colocava em fileira no chão e proferia o que estava por vir; eu apenas observava. Meu pai perguntou sobre o que estava ocorrendo e ele disse:
- A raposa quando for buscar as últimas galinhas, deixará a cabeça.
Lembro-me das palavras como se fosse hoje, não disse nada de concreto, achei a visita em vão. O fato era que meu pai confiava nele, pois quando a égua cabana caiu na sanga ele disse que ela estava viva e que estava no buraco da lavoura de baixo. A égua estava lá de pé, sã e salva. Pensei, mas o que a raposa tem a ver com isso?
Voltamos para casa sem respostas de quem era a criatura que andava fazendo tantas maldades.
O fato é que houve uma trégua de algumas semanas e já estávamos um pouco mais relaxados.
Certa noite, os cachorros começaram a latir incessantemente atrás das estufas, parecia que estavam sendo provocados. Meu pai disse para mim:
-Filha, vai lá e toca um pau nesses cachorros para pararem de latir.
Eu peguei um pau de lenha e sai na rua, mas senti um calafrio muito forte e corri para dentro. Um mau presságio, eu acho.
O Meu irmão tinha ido dormir, era umas nove horas da noite, mas minha mãe o chamou para tomar uma sopa, ele estava meio sonolento. Os cachorros continuavam latindo e meu pai irritado deu a chave do cofre para o meu irmão e disse: - Pega o revólver e dá uns tiros para que os cachorros parem de latir. Deve ser o cachorro do vizinho que está por ai incomodando os outros.
Ele meio contrariado abriu a porta, a luz da rua clareava até o canto da estufa, e ele foi até lá, olhou e disse: - Aqui não tem nada, e virou-se de volta em direção a porta da casa que estava cerca de uns 200 metros.
Nesse momento, ouviu alguém correndo atrás dele, começou a correr também. Minha mãe grita:- Meu Deus, tem um homem lá.
Meu pai fica assustado, eu apavorada, são segundos que parecem eternos.
O Homem tenta puxar a blusa do meu irmão, ele no susto, sem olhar para trás atira, consegue se virar e disparar mais quatro tiros, o homem cai e o meu irmão grita: - Pai, matei um homem
Saímos correndo para a rua e o homem estava lá, estirado no chão, nunca tinha visto aquele homem, conhecíamos todos por ali e ele era a cara do Zé da Brema (minha parteira). Perguntei: - Mãe, parece o Zé da Brema, sabe quem é?
E ela falou: -É o filho do seu Saul, aquele que veio fugido da policia, lá de Porto Alegre.
O homem ainda respirava e meu irmão perguntou: -Pai, termino de matar, ainda tem duas balas. E o pai respondeu: -Não meu filho, esse já era. Foi legítima defesa, fez uma grande coisa, vai ganhar um boizinho por isso.
Os cinco tiros atingiram a cabeça e ele roncava muito alto. Eu estava arrepiada da cabeça aos pés. Parece que um carro arrancou lá da porteira. Será que ele estava sozinho? Perguntamo-nos.
Não tinha telefone, nem condução. Tínhamos que ligar para a polícia e para a ambulância. E dar a noticia a família, gente muito honesta, muito boa mesmo. Faríamos isso no outro dia, precisávamos ligar para a policia do cristal, tinha telefone apenas na venda do Tadeu. Tínhamos que sair dali. Eu e minha mãe fomos lá para a Brema, pedir que alguém fosse até o Tadeu, mas não podíamos revelar a identidade do indivíduo porque se tratava do sobrinho deles, isso explicava a semelhança com o Zé, e não saberíamos qual reação eles teriam. Saímos na escuridão da noite. Quando chegamos à estrada, cada barulho me arrepiava da cabeça aos pés. Meu pai e meu irmão foram para a casa do Senhor Vicente, não podiam ficar ali, não sabíamos se o indivíduo estava sozinho.
Ouvimos a sirene da ambulância lá pelas três da madrugada. No outro dia, ouvimos na Rádio Farroupilha que um indivíduo do interior de Cristal havia sido internado no Hospital de Porto Alegre com cinco tiros, sem mais detalhes. Ficamos com medo de que ele sobrevivesse e voltasse para se vingar. Ele morreu dez dias depois.
Fico pensando, se ele tivesse tomado a arma do meu irmão, acredito que eu não estaria aqui para contar a história, ele teria matado todos nós.
Logo que amanheceu meu pai foi pessoalmente contar para o Sr. Saul o que havia ocorrido na noite anterior e todas as atrocidades que vinham acontecendo no nosso sítio. O pobre Senhor envergonhado pediu desculpas de cabeça baixa, estava muito envergonhado pelo que o filho fizera. Havia dado abrigo para o filho e a família, na velha estufa de fumo, depois que ele havia fugido de Porto Alegre foragido da policia e prometido de morte por bandidos. O mais triste é que ele tinha uma família, quatro filhos pequenos e uma mulher. O que não entendemos até hoje, como pode fazer tão mau a nós, a ele e a própria família?
A raposa havia ido buscar as duas últimas galinhas que restavam no poleiro e deixou a cabeça. Só então, entendi a metáfora.
Logo depois do sepultamento do filho, apesar da dor e da vergonha, O Senhor Saul apareceu lá em casa levando embaixo do braço o rádio, o lençol e o chinelo que o filho havia roubado e mais algumas coisas que não tínhamos notado a falta. Mostrou o quanto era humilde e honesto e não entendia como seu filho havia se corrompido, fora criado com todo amor, tinha tudo; Digo tudo que se necessita, não quer dizer tudo que se quer. Mas o necessário deveria bastar. Havia criado mais quatro filhos, todos honestos e trabalhadores, apenas um havia se corrompido. Fico questionando: Até onde um pai pode interferir no caráter de um filho?
AMARAL,Janice
Tem a maldade pela ganância e inveja , tem a maldade por ignorância do bem e tem a maldade por pura maldade mesmo, tem gente que parece gostar de fazer o mau.
Fomos embora do sítio e viemos para Novo Hamburgo porque a paz daquele paraíso acabou.
Vou relatar a história:
Começamos a perceber que alguém ficava escondido atrás de uma pedra, cerca de um quilômetro da casa, praticamente todos os dias, observando nossa rotina, quando tentávamos nos aproximar, o indivíduo saia correndo. Nossa ingenuidade não podia prever o que estava por acontecer.
Certo domingo, fomos passear num dos vizinhos, não lembro qual e quando voltamos alguém havia entrado na casa. Roubaram o velho rádio do meu pai, um par de chinelos e um jogo de lençol. Não era muita coisa, mas algo absurdo, pois nunca soubemos de nenhum roubo nas redondezas. A porta era fechada com uma tranca de madeira, não havia chaves. Não deixou rastros, mas supomos que fosse o indivíduo que vinha rondando a casa.
Não parou por ai, depois desse dia, todas as noites ouvíamos os latidos dos cachorros próximo as estufas, onde ficava o poleiro das galinhas. Todas as noites sumia uma galinha.
Certa manhã um de nossos cachorros amanheceu boiando no açude, quando fomos retirá-lo de lá, estava com as quatro patinhas amarradas com um cinto. Choramos muito, era apenas um filhote da raça Collie. Começamos a ficar apavorados porque percebemos que ele não queria apenas roubar, mas amedrontar. Sabia que ali vivia um Senhor cego, uma Senhora e três crianças. Meu irmão tinha apenas quatorze anos.
O bandido descobriu onde ficava o disjuntor da luz e começou a desligá-lo quase todas as noites, o fato é que ficava cerca de quinhentos metros da casa e meu pai com porrete em punho e minha mãe iam em meio a escuridão religá-lo, correndo risco de serem surpreendidos. Algumas noites ele desligava o disjuntor depois que já tínhamos ido dormir e no outro dia, tudo que havia na geladeira tinha sido perdido.
Quando os cachorros começavam a latir, meu pai dava alguns tiros a esmo, para amedrontá-lo. No entanto isso não intimidou, pelo contrário, as vindas eram mais frequentes. Outra noite, os cachorros latiram muito próximo à porta da cozinha, já não arriscávamos sair para a rua durante a noite, reforçamos as trancas da casa. No outro dia percebemos que havia um pozinho verde em frente a porta da cozinha e as “espertas crianças” e curiosas colocaram água em cima,o liquido escorreu pelo terreiro, só que alguns pintinhos sedentos beberam dessa água e no mesmo instante, morreram.
Estávamos apavorados, não sabíamos o que fazer, percebemos que estávamos lidando com alguém muito mau. E por que nós? Falamos com os vizinhos, ninguém estava sendo roubado. Meu pai passou a manter o revólver próximo a ele, caso houvesse alguma invasão na casa.
Havia um vidente nas redondezas e meu pai, nos momentos de aperto o consultava.O Senhor Valdemar, pegava suas folhas de arruda, colocava em fileira no chão e proferia o que estava por vir; eu apenas observava. Meu pai perguntou sobre o que estava ocorrendo e ele disse:
- A raposa quando for buscar as últimas galinhas, deixará a cabeça.
Lembro-me das palavras como se fosse hoje, não disse nada de concreto, achei a visita em vão. O fato era que meu pai confiava nele, pois quando a égua cabana caiu na sanga ele disse que ela estava viva e que estava no buraco da lavoura de baixo. A égua estava lá de pé, sã e salva. Pensei, mas o que a raposa tem a ver com isso?
Voltamos para casa sem respostas de quem era a criatura que andava fazendo tantas maldades.
O fato é que houve uma trégua de algumas semanas e já estávamos um pouco mais relaxados.
Certa noite, os cachorros começaram a latir incessantemente atrás das estufas, parecia que estavam sendo provocados. Meu pai disse para mim:
-Filha, vai lá e toca um pau nesses cachorros para pararem de latir.
Eu peguei um pau de lenha e sai na rua, mas senti um calafrio muito forte e corri para dentro. Um mau presságio, eu acho.
O Meu irmão tinha ido dormir, era umas nove horas da noite, mas minha mãe o chamou para tomar uma sopa, ele estava meio sonolento. Os cachorros continuavam latindo e meu pai irritado deu a chave do cofre para o meu irmão e disse: - Pega o revólver e dá uns tiros para que os cachorros parem de latir. Deve ser o cachorro do vizinho que está por ai incomodando os outros.
Ele meio contrariado abriu a porta, a luz da rua clareava até o canto da estufa, e ele foi até lá, olhou e disse: - Aqui não tem nada, e virou-se de volta em direção a porta da casa que estava cerca de uns 200 metros.
Nesse momento, ouviu alguém correndo atrás dele, começou a correr também. Minha mãe grita:- Meu Deus, tem um homem lá.
Meu pai fica assustado, eu apavorada, são segundos que parecem eternos.
O Homem tenta puxar a blusa do meu irmão, ele no susto, sem olhar para trás atira, consegue se virar e disparar mais quatro tiros, o homem cai e o meu irmão grita: - Pai, matei um homem
Saímos correndo para a rua e o homem estava lá, estirado no chão, nunca tinha visto aquele homem, conhecíamos todos por ali e ele era a cara do Zé da Brema (minha parteira). Perguntei: - Mãe, parece o Zé da Brema, sabe quem é?
E ela falou: -É o filho do seu Saul, aquele que veio fugido da policia, lá de Porto Alegre.
O homem ainda respirava e meu irmão perguntou: -Pai, termino de matar, ainda tem duas balas. E o pai respondeu: -Não meu filho, esse já era. Foi legítima defesa, fez uma grande coisa, vai ganhar um boizinho por isso.
Os cinco tiros atingiram a cabeça e ele roncava muito alto. Eu estava arrepiada da cabeça aos pés. Parece que um carro arrancou lá da porteira. Será que ele estava sozinho? Perguntamo-nos.
Não tinha telefone, nem condução. Tínhamos que ligar para a polícia e para a ambulância. E dar a noticia a família, gente muito honesta, muito boa mesmo. Faríamos isso no outro dia, precisávamos ligar para a policia do cristal, tinha telefone apenas na venda do Tadeu. Tínhamos que sair dali. Eu e minha mãe fomos lá para a Brema, pedir que alguém fosse até o Tadeu, mas não podíamos revelar a identidade do indivíduo porque se tratava do sobrinho deles, isso explicava a semelhança com o Zé, e não saberíamos qual reação eles teriam. Saímos na escuridão da noite. Quando chegamos à estrada, cada barulho me arrepiava da cabeça aos pés. Meu pai e meu irmão foram para a casa do Senhor Vicente, não podiam ficar ali, não sabíamos se o indivíduo estava sozinho.
Ouvimos a sirene da ambulância lá pelas três da madrugada. No outro dia, ouvimos na Rádio Farroupilha que um indivíduo do interior de Cristal havia sido internado no Hospital de Porto Alegre com cinco tiros, sem mais detalhes. Ficamos com medo de que ele sobrevivesse e voltasse para se vingar. Ele morreu dez dias depois.
Fico pensando, se ele tivesse tomado a arma do meu irmão, acredito que eu não estaria aqui para contar a história, ele teria matado todos nós.
Logo que amanheceu meu pai foi pessoalmente contar para o Sr. Saul o que havia ocorrido na noite anterior e todas as atrocidades que vinham acontecendo no nosso sítio. O pobre Senhor envergonhado pediu desculpas de cabeça baixa, estava muito envergonhado pelo que o filho fizera. Havia dado abrigo para o filho e a família, na velha estufa de fumo, depois que ele havia fugido de Porto Alegre foragido da policia e prometido de morte por bandidos. O mais triste é que ele tinha uma família, quatro filhos pequenos e uma mulher. O que não entendemos até hoje, como pode fazer tão mau a nós, a ele e a própria família?
A raposa havia ido buscar as duas últimas galinhas que restavam no poleiro e deixou a cabeça. Só então, entendi a metáfora.
Logo depois do sepultamento do filho, apesar da dor e da vergonha, O Senhor Saul apareceu lá em casa levando embaixo do braço o rádio, o lençol e o chinelo que o filho havia roubado e mais algumas coisas que não tínhamos notado a falta. Mostrou o quanto era humilde e honesto e não entendia como seu filho havia se corrompido, fora criado com todo amor, tinha tudo; Digo tudo que se necessita, não quer dizer tudo que se quer. Mas o necessário deveria bastar. Havia criado mais quatro filhos, todos honestos e trabalhadores, apenas um havia se corrompido. Fico questionando: Até onde um pai pode interferir no caráter de um filho?
AMARAL,Janice
quarta-feira, 23 de julho de 2014
O Delator.
Ele chegou sorrateiramente. De repente ele estava ali em meio a floresta negra, paquidérmicamente ali; estaqueado, duro, teso e brilhante. Destacava-se dos demais e causou-me estranheza.
O que ele estava fazendo ali? O primeiro ímpeto foi arrancá-lo, espedaçá-lo e pisoteá-lo, atear fogo talvez . Desisti porque dizem as más línguas que a partir deste momento, ele volta com mais força, multiplica-se feito erva daninha.
Esse vilão cruel , muitos já tiveram a oportunidade de conhecer, outros ainda não, mas com certeza esse dia chegará. Para uns ele chega um pouco antes , para outros pode demorar um pouquinho: O primeiro fio de cabelo branco.
A sua presença foi um choque de realidade. Eu com alma de menina deparei-me com o meu delator. Ele veio alertar-me de que o tempo passou . Que daqui para frente tudo mudaria e que muitas coisas já haviam mudado e eu nem percebi. Afinal de contas, vivo comigo todos os dias. Quantas marcas de expressão já devem ter aparecido e gordurinhas protuberantes.
Entendi que o corpo se modifica mas o sorriso de moleca e os sonhos de adolescente estão vívidos . Não percebi a passagem do tempo mas conclui que a alma não envelhece nunca.
AMARAL, Janice
terça-feira, 22 de julho de 2014
Insônia
Deitei na cama, virei para um lado, virei para o outro lado e assim sucessivamente. Deitei de costas. Abri os olhos e só vi a escuridão.
Estranho. Muito estranho. Quando eu era criança tinha medo de abrir os olhos, dormia sempre com alguma luz acesa. Tinha medo de me deparar com alguma criatura estranha ao lado da cama e confesso até pouco tempo tinha esse hábito.
Com os olhos abertos na escuridão, fiquei pensando, como deve ter sido triste para o meu pai permanecer na escuridão durante quinze anos. Como a sensação que tive por alguns minutos,só que durante todo tempo, exceto quando sonhava.
Certo dia ele disse: -“Gosto de dormir, porque nos meus sonhos eu consigo enxergar, tudo tão claro, tão nítido. Vejo os rostos, as pessoas sorrindo, os lugares que já percorri e lugares que desconheço”.
Será que a alma tem olhos?
Nesse caso o Gênio Maligno de Descartes o enganaria ao fazê-lo pensar que havia voltado a enxergar, enquanto apenas sonhava.
Pensando assim, consigo admirar ainda mais aquela figura, minha figura paterna, que tenho em minha mente guardada. Um Homem que nunca desistiu de voltar a enxergar e não permitia que sentissem pena dele. Certo dia duas senhoras chegaram lá em casa para profetizar e foram conversar com ele que estava sentado ao lado da velha casa, tomando sol, elas se aproximaram e o cumprimentaram e quando perceberam que ele não podia vê-las elas ficaram surpresas e disseram: -“Coitadinho, ele não enxerga.” E ele mais que de pronto respondeu: “-Eu não sou coitadinho, eu sou feliz por estar vivo e por poder sustentar minha família, não peço e nem vou pedir esmola para ninguém”. Elas ficaram envergonhadas, se desculparam e foram embora. A resposta foi um pouco rude mas demonstrou toda a sua hombridade.
No início ele ficou muito revoltado com a essa perda irreparável, aos poucos foi se adaptando. Continuou com seus afazeres. Consertava as cercas de arame, pregava algumas tábuas que se desprendiam da parede da velha casa. Acredite mesmo cego ele conseguia pregar sem martelar seus dedos, apenas com a habilidade do tato. Prendia as éguas na charrete e saia para fazer suas negociações. Trocava o excedente da produção por outras mercadorias que não produzíamos na chácara. Saia com sacas de laranja e voltava para casa com sacos de cebola, batatas.
Quanto a sua memória fotográfica,algo fora do comum. Os olhos da alma o guiavam, falando poeticamente. Cientificamente possuía uma excelente memória, apurou os sentidos e assim por diante...
Quando ele faleceu estava com medo de vê-lo num caixão, porém quando o vi, ele estava com um sorriso lindo, parecia que estava sonhando. Acredito que tenha voltado a enxergar. Isso aliviou meu coração.
Quando li Ensaio sobre a Cegueira, romance de José Saramago, fiquei encantada, pois autor nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
Muitas vezes, reparamos apenas a vida alheia.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Paradóxos
Quando eu era criança os dias eram intermináveis e divertidos;
Os finais de semana pareciam verdadeiras odisseias, infindáveis e deliciosos;
O Natais e as Páscoas eram as datas mais esperadas para comemorar e reunir a família e como custava para chegar;
E a única coisa que queríamos era ser gente grande;
Gente grande para poder trabalhar;
Gente grande para poder namorar;
Gente grande para sair da casa da mãe;
Hoje, gente grande sou eu ( nem tanto assim rsrs) e o tempo voa;
Num piscar de olhos o final de semana passa;
O mês passa;
O ano passa;
A Páscoa chega e é apenas mais um dia;
O Natal chega em outubro com suas propagandas do”bom velhinho” e logo passa;
Tudo o que queremos, ás vezes, é um dia de folga do trabalho
Uma folga do namorado (a) e correr para o colo da mãe...
E ai vem alguém e diz: "Até uva passa".(Putz)
AMARAL.Janice
Os finais de semana pareciam verdadeiras odisseias, infindáveis e deliciosos;
O Natais e as Páscoas eram as datas mais esperadas para comemorar e reunir a família e como custava para chegar;
E a única coisa que queríamos era ser gente grande;
Gente grande para poder trabalhar;
Gente grande para poder namorar;
Gente grande para sair da casa da mãe;
Hoje, gente grande sou eu ( nem tanto assim rsrs) e o tempo voa;
Num piscar de olhos o final de semana passa;
O mês passa;
O ano passa;
A Páscoa chega e é apenas mais um dia;
O Natal chega em outubro com suas propagandas do”bom velhinho” e logo passa;
Tudo o que queremos, ás vezes, é um dia de folga do trabalho
Uma folga do namorado (a) e correr para o colo da mãe...
E ai vem alguém e diz: "Até uva passa".(Putz)
AMARAL.Janice
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